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Caminhos e descaminhos

Autor: Dr. José Otávio Naves

Suzana havia pedido a sua amiga Júlia a indicação do nome de um psicoterapeuta. O nome e o telefone vieram escritos em um papel qualquer que ficou durante muito tempo descansando dentro da sua bolsa.
Ela perdera sua mãe seis meses atrás e agora a sua relação amorosa também se mostrava agonizante. Tanto o prazer quanto a esperança que ela e Júlio, seu amante, encontravam quando juntos, haviam se tornado estranhamente ameaçadores. Antes, era nesses momentos que ela curava seus desprazeres, agora o que sobrava eram arrepios e queixas de dor. Nem ela nem ele compreendiam esta inversão, nem conseguiam explicação ou direção ao claro escuro enigmático que os constrangia. Suzana ficou sozinha e assustada, acompanhada unicamente por estas reações inesperadas que não compreendia e nem sabia apaziguar.
O papel com o nome do Dr. Evaldo, o terapeuta, passeou bastante por vários lugares de sua casa. Da bolsa parece que se mudou para ficar uns tempos na gaveta da escrivaninha, e depois, pelos cantos, escondido talvez pela própria Suzana que queria esquecer suas agruras e engavetar suas feridas.
Às vezes, porém, pensava nesse Dr. Evaldo, imaginando-o de terno, cabelos meio grisalhos, sério mas acolhedor, com consultório montado em Copacabana, pura imaginação já que nunca soubera do seu endereço.
Uma vez, na praia, uma onda feia provocou reviravoltas em seu corpo e em sua alma. Ela se enrolou na toalha pequena, em cima da canga que uma amiga havia lhe trazido de um cruzeiro pelo nordeste, e sentiu frio sob o sol de meio dia. Assim, fragilizada, quase sem sentir seu corpo todo tomado pelo medo da onda, lhe veio novamente à lembrança o psicoterapeuta. Onde estava o telefone mesmo?
A questão se esvaiu na medida em que um carrinho de sorvete de chocolate passou por ela e a seduziu e lhe prometeu colocar e esconder outra vez, dentro de si mesma, o frio que terminara com o verão da praia.
Outra vez, em plena transa, a mesma idéia lhe passou pela cabeça, esquisita pelo momento e pela situação. Perdeu todo o prazer no qual já mergulhara e pensou no papel… Onde estaria? Como se ele fosse o mapa de uma magia qualquer que pudesse dar outra vez sentido à respiração arfante do homem que abraçava. Seria aquela lembrança um meio estapafúrdio de se afastar da cena e se safar, já que o prazer se tornara um deserto? Pensar nisto enquanto fingia transar lhe pareceu, ao mesmo tempo, hilário e ameaçador.
Mais tarde ela percebeu que a ideia de uma psicoterapia ia e vinha. Ela a encontrava no fundo de um copo de chope, outras vezes, num por de sol ou num momento mais difícil de um filme que a incomodava. Suzana brigou com a amiga Júlia, mudou de apartamento, teve inúmeros outros namorados, fez várias viagens e uma plástica no rosto que ficou muito boa.
Na semana passada, numa tarde de verão em que decidiu ficar em casa para arrumar gavetas e se refugiar no ar condicionado, reencontrou o papel. Colocou-o no sutiã repetindo um gesto antigo, característico de sua mãe, que ali colocava suas chaves ou uma nota de dinheiro menor. E finalmente, alguns dias depois, telefonou e marcou hora com o Dr. Evaldo.
Não gostou muito da voz dele, fanha demais e um pouco áspera… Mas de qualquer jeito foi. O homem não estava de terno, era meio aloirado… Bastante diferente da imagem que ela havia construído dentro de si.
Seu consultório era mesmo em Copacabana, única coisa que dera certo em todas as suas previsões. Sentou-se um pouco encabulada na poltrona oferecida e, muito assustada com o que dizia, começou o seu percurso de uma forma esquisita, como se reconhecesse aquela fisionomia como muito antiga e escondida em algum canto de si mesma:
-Sei que é estranho falar assim, mas faz longo tempo que converso com você!

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