É ERRANDO QUE SE APRENDE
O erro bom é aquele que abre alternativas. Um bom exemplo é Thomas Edison que, intimado por seu patrocinador a interromper suas experiências disse: ‘por que desistir agora, já que conhecemos muitos modos de como não fazer uma lâmpada?’ Ou seja, para Edison, errar aumenta a chance de acertar na próxima tentativa.
O matemático austríaco Piet Hein também era inventor; foi ele que criou o ‘cubo mágico’, aquele brinquedo diabólico em que é preciso deixar cada face do cubo de uma única cor. Talvez você não saiba, mas há 240 caminhos para resolver o ‘problema’. Para chegar a um deles, no entanto, é preciso errar bastante. Ou seja, é preciso tentar muitas rotações até conseguir solucionar; e mais, tem que memorizar cada tentativa errada para não cometê-la novamente. Se não aprender com o erro, vai insistir nele e continuar insistindo até o limite de seu controle emocional.
Quem já tentou e não conseguiu sabe que dá vontade de desmontar o cubo e remontá-lo certo. Só que essa fraude é possível no jogo, mas não o é na vida.
Não há como desmontar o mundo e montá-lo como nos pareça certo. O que há é um pequeno atalho: aprenda com o erro dos outros. De preferência daqueles que acabaram acertando no final. Esse atalho pode ser encontrado no estudo, na leitura e na interação com outras pessoas, especialmente os mais velhos.
Hein, o inventor do cubo mágico, escreveu: ‘o caminho para a sabedoria é direto e simples de expressar: errar, errar e errar novamente… mas, menos, menos e menos…
O erro oculto
Entretanto, há erros inconscientes, dos quais às vezes não temos como nos livrar. O pai da psicanálise, Sigmund Freud os denominou de fenômenos lacunares. Isto é, são lacunas que ocorrem nas manifestações conscientes, abrindo caminhos para o inconsciente. Entre estes fenômenos estão os lapsos, os atos falhos, e outros sintomas. Devido a estes mecanismos estamos sujeitos a cometer erros que não temos como evitar, pois causam uma descontinuidade no discurso consciente. Trocar ou esquecer o nome de um conhecido são erros que, quando acontecem, nos deixam com uma estranha sensação de vazio. Você já experimentou essa bizarra saia justa? Pois você sofreu um fenômeno lacunar. Freud explica…
A psicologia, a filosofia e até lei aceitam que errar faz parte da condição humana. Mas todos são unânimes em afirmar: “não faz mal que você erre, desde que esteja aprendendo com seus erros”. Na antiga Roma, o político e orador respeitado Marcus Tullius Cícero dizia que “errar é próprio do homem, mas perseverar no erro é coisa dos tolos”. Muitos séculos depois o filósofo alemão Emmanuel Kant disse que “o contrário da verdade é a falsidade. Mas quando a falsidade é tida como verdade, passa a se chamar erro”. Quase todos os grandes pensadores da humanidade disseram alguma coisa a respeito do erro e, acredite, todos eles erraram muito, só que entraram para a história por seus acertos, é claro.
O erro previsto
Os erros são, em geral, involuntários, até porque, se forem propositais, deixam de ser apenas erros, passam a ser crimes. Até o Código Penal brasileiro prevê essa diferença, cuidando também dos erros, e não apenas dos crimes. Por exemplo, se alguém, em um aeroporto, leva uma mala de outra pessoa, pensando ser a sua, praticou uma ação ilícita sem saber. Cometeu o que a lei chama de “erro de tipo”. É claro que essa pessoa não será condenada por seu ato, mas sua responsabilidade não é desconsiderada, pois ela devia ser mais atenta.
Há também o chamado “erro de proibição” em que a pessoa errou por não saber que o que fez era proibido pela lei. A descrição desse erro mostra que a pessoa pode realmente estar enganada sobre o seu ato ser uma conduta proibida ou não. Um caboclo que sempre caçou animais nativos, e ao ser preso por crime contra a fauna, não entende o que ele cometeu de errado, pois sua família sempre agiu daquela forma. O mesmo ocorre com os índios que não têm conhecimento dos códigos da civilização. Nestes casos, o Estado assume sua parte de culpa, pois devia oportunizar a essas pessoas a noção do erro, através da educação.
A virtude do erro
O erro não nos afasta da virtude. A maneira como lidamos com ele, sim. Duas qualidades devem acompanhar o erro: a responsabilidade e o aprendizado. Ser responsável significa responder por seus erros, o que é próprio dos adultos.
Aprender significa incorporar o que é certo e o que é errado, o que é próprio dos atentos.
Ser adulto e estar atento são qualidades dos que acertam mais, apesar de terem errado muito.
Errou? Não faz mal, desde que você:
- Seja lúcido para admitir que errou;
- Seja humilde para assumir a responsabilidade;
- Seja esperto para consertar o resultado;
- Seja sábio para incorporar o aprendizado.
Isto vale para pessoas, organizações e para a própria sociedade. Em uma empresa da organizada e próspera cidade de Joinville, vi, certa vez, logo na entra da, uma placa que dizia: “aqui é permitido errar”. Trata-se de uma empresa adulta e atenta e, claro, competitiva e rica. A moderna administração reconhece a importância do erro, mas a sabedoria popular já fazia isso antes. Nosso Paulo Vanzolini, cientista e poeta, é autor da célebre música Volta por Cima, em que ele dá conselhos àquele que, como ele, e como todos, errou mas, por ser um “homem de moral, não fica no chão”. O que faz, então? Ora: “Reconhece a queda e não desanima. Levanta, sacode a poeira, e dá a volta por cima”.
Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.
Todos os direitos reservados.
Visite o site da revista: www.revistavidasimples.com.br
(Eugenio Mussak – Uma coisa de cada vez, atitudes para viver melhor – Ed. Gente)








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